O desempenho escolar de jovens de 15 anos nos países mais ricos do mundo despencou, segundo os resultados do Pisa 2025 divulgados nesta terça-feira (8) pela OCDE, que ouviu mais de 760 mil estudantes de 91 nações. Analistas apontam que o hábito de ler menos e com pressa, a falta de interesse pelos conteúdos, o uso excessivo de inteligência artificial e as distrações tecnológicas ajudam a explicar a crise.
As três áreas avaliadas pelo exame tiveram queda significativa na média dos países da OCDE ao longo da última década — e uma diferença de 20 pontos equivale a cerca de um ano inteiro de aprendizado escolar. Em leitura, a competência mais afetada, a perda foi de 28 pontos em dez anos (contra 16 pontos fora da OCDE); apenas entre 2018 e 2025, a queda foi de 25 pontos, com Islândia e Eslovênia registrando tombos superiores a 50 pontos. Em matemática, a queda na década foi de 22 pontos na OCDE, ante 8 pontos nas demais economias. Em ciências, o recuo entre 2015 e 2025 foi de 7 pontos na OCDE, enquanto os demais países mantiveram desempenho estável.
Esse retrocesso elevou para 29% a proporção de adolescentes nos países ricos classificados como de baixo desempenho simultâneo em leitura, matemática e ciências — ante 25% em 2022. "Nunca tivemos tanta tecnologia disponível e nunca foi tão importante saber ler profundamente, interpretar evidências, resolver problemas e formar julgamentos próprios. E justamente essas competências estão se deteriorando em muitos países", afirma Ricardo Henriques, superintendente executivo do Instituto Unibanco.
A queda mais expressiva ocorreu entre o quarto dos estudantes mais favorecidos socioeconomicamente: entre 2018 e 2025, foram os jovens de famílias mais abastadas que mais perderam desempenho em leitura. Esse declínio no topo reduziu em 11 pontos a desigualdade de desempenho entre ricos e pobres na média da OCDE (de 88 para 77 pontos de diferença) — mas não porque os alunos mais vulneráveis melhoraram, e sim porque os mais ricos pioraram. Em países como Noruega, Finlândia e Dinamarca, 1 em cada 4 estudantes já imagina alcançar um nível educacional inferior ao dos pais.
"O mundo em que vivemos hoje, de inteligência artificial e leitura mais dinâmica — com redes sociais e outros aspectos —, pode estar impactando os leitores menos proficientes e ter um impacto global na aprendizagem, não só em leitura, mas em outras disciplinas também", avalia Ernesto Martins, pesquisador do centro de pesquisas Iede.
Embora a pandemia e o fechamento de escolas tenham agravado o cenário, o próprio Pisa indica que a trajetória de queda nos países ricos já vinha ocorrendo antes da Covid-19. Entre os fatores estruturais apontados estão a chamada 'leitura apressada' — o hábito de passar rapidamente pelos textos e responder de forma incorreta, que quase dobrou entre 2018 e 2025, chegando a 9% dos estudantes —, o aumento do tédio e do desengajamento (16% dos alunos da OCDE já dizem achar chato aprender assuntos novos, com mais faltas escolares) e as distrações digitais, já que 28% dos estudantes, em média, relatam que colegas se distraem com celulares na maioria das aulas de ciências.
O uso frequente de chatbots para tarefas específicas — resumir leituras, pesquisar previamente ou redigir textos — está associado, em média, a 20 pontos a menos em ciências na comparação com quem não usa a ferramenta, o equivalente a perder um ano de escolaridade. No Canadá e na Nova Zelândia, estudantes que usam IA para escrever textos tiveram, respectivamente, 29 e 36 pontos a menos do que os que escrevem por conta própria. "Se, durante os anos formativos, os jovens passam a delegar à IA a compreensão de um texto, a formulação de um argumento ou a resolução de um problema, eles deixam de treinar justamente as capacidades que precisam desenvolver", afirma Ivan Pereira, CEO da Mind Lab. "O grande dilema da educação não será simplesmente ensinar os jovens a usar IA, mas ensiná-los a usar IA sem perder autonomia intelectual."
Pesquisadores chamam esse padrão de uso diário e sem supervisão de 'preguiça metacognitiva e desengajamento' — quando o aluno delega a tarefa intelectual à máquina e compromete o próprio aprendizado. Já o uso moderado, de uma ou duas vezes por semana, com foco em 'ajudar a aprender', produz desempenho equivalente ao de quem não usa a ferramenta. Na média da OCDE, cerca de 1 em cada 5 alunos usa IA quase diariamente para tarefas escolares, apenas 14% nunca ou quase nunca recorreram à tecnologia, e os estudantes de famílias mais ricas tendem a usar a IA com mais frequência, provavelmente por maior acesso a dispositivos, internet estável e assinaturas pagas.
Entre 2022 e 2025, países como Dinamarca (-29 pontos), Sérvia (-26), Noruega (-24), Espanha (-23), Croácia (-22), Suécia e Hungria (-21 cada), Hong Kong e República Tcheca (-20 cada) tiveram quedas expressivas em leitura no curto prazo. As perdas mais altas do período ocorreram na Letônia (-45), em Israel (-38), na Guatemala (-37) e em Malta (-31).
Os dados do Pisa 2025 também mostram que existe correlação positiva entre gasto por estudante e desempenho, mas apenas até o limite de US$ 85 mil (R$ 435 mil) acumulados por aluno — depois disso, a correlação desaparece. O exemplo mais evidente é Luxemburgo, que gasta US$ 288.521 (quase R$ 1,5 milhão) por aluno, o maior valor do mundo, mas obteve pontuação em ciências inferior à de países como Irlanda, França e Itália, que investem menos da metade disso. O caso mostra que gastar mais não garante automaticamente melhores resultados — a forma de administrar os recursos é o que faz diferença.
Para os especialistas ouvidos, os resultados do Pisa 2025 expõem a dificuldade dos sistemas de ensino mais ricos do mundo em se adaptar às mudanças tecnológicas e sociais. Numa era em que pensamento crítico, interpretação de dados e leitura atenta se tornam ainda mais valiosos, esses países correm o risco de formar uma geração menos preparada que a anterior para o mercado de trabalho — o desafio, segundo eles, não é apenas de investimento, mas de repensar o modelo de ensino para recuperar a atenção e o engajamento dos estudantes.
Com informações do G1.
