Entre os estudantes brasileiros de 15 anos, recém-saídos do ensino fundamental II, sete em cada dez não conseguem realizar operações matemáticas simples, como multiplicar para converter uma moeda estrangeira em reais ou comparar as distâncias percorridas por um carro em dois trajetos diferentes. O dado integra o Pisa 2025, cujos resultados, com informações de 91 países, foram divulgados nesta terça-feira (8): 72% dos alunos brasileiros ficaram abaixo do nível 2 em matemática, patamar mínimo considerado satisfatório pela avaliação — bem acima da média de 35% registrada nos países da OCDE.
O Pisa é uma avaliação internacional aplicada a cada três anos para medir o conhecimento de estudantes em matemática, leitura e ciências. Na edição de 2025, foi incluída pela primeira vez a resolução de problemas computacionais — a capacidade de aplicar lógica e conceitos de programação, habilidade cada vez mais ligada ao raciocínio matemático. Nessa área, o Brasil obteve 406 pontos, quase 100 pontos abaixo da média da OCDE (500 pontos), ficando próximo de países como Jordânia e Argentina e atrás da maioria dos participantes.
Dentro da faixa abaixo do nível 2, a escala do Pisa distingue o nível 1a, de desempenho baixo, de uma faixa ainda mais crítica, de desempenho muito baixo. No Brasil, 44% dos estudantes estão nessa faixa mais baixa, abaixo até do nível 1a, e outros 28% estão no nível 1a — ou seja, a maioria dos alunos que não atinge o patamar básico está longe de alcançá-lo, no fundo da escala. No topo, o cenário se inverte: praticamente nenhum estudante brasileiro chega aos níveis 5 ou 6, os mais altos da avaliação, contra 8% na média da OCDE. Um aluno nesse patamar consegue modelar matematicamente situações complexas e comparar diferentes estratégias de solução — países como China, Singapura, Taipé Chinês, Macau, Coreia do Sul, Japão e Hong Kong têm mais de 20% dos estudantes nesse grupo.
Para Ernesto Martins, pesquisador do centro de pesquisas Iede, o baixo desempenho em matemática não é exclusivo do Brasil, mas um problema compartilhado por toda a América do Sul: entre os oito países da região com dados na edição de 2025, nenhum se aproxima da média da OCDE (465 pontos) — o Uruguai, melhor colocado entre os vizinhos, tem 405 pontos, e o Brasil aparece com 377, à frente apenas de Argentina, Equador e Paraguai.
Segundo o pesquisador, uma das causas do desempenho brasileiro está na formação dos professores. "Há uma necessidade de se ampliar o repertório matemático dos docentes. Temos cursos que muitas vezes atraem candidatos com formação básica mais frágil e que, durante a graduação, nem sempre conseguem compensar essas lacunas e preparar suficientemente o futuro professor para a prática de sala de aula", explica. Esse repertório insuficiente, segundo ele, aparece dos dois lados da sala de aula — na formação de quem ensina e na trajetória de quem aprende: "Quando a formação do professor não desenvolve suficientemente esse conhecimento, existe o risco de o ensino ficar mais centrado na reprodução de procedimentos e fórmulas do que na construção do raciocínio matemático."
Do lado dos alunos, o problema se acumula ano após ano, já que a matemática depende fortemente de aprendizados anteriores. "Uma criança que não consolida sentido de número, operações, frações e proporcionalidade chega aos anos finais com lacunas que dificultam álgebra, geometria e resolução de problemas. O professor dos anos finais passa então a ensinar conteúdos mais complexos para alunos que ainda não dominam conhecimentos fundamentais", diz Martins.
Com informações do G1.

