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40 ml, quatro vezes a dose usual: a morte que expõe os riscos do ácido hialurônico no pênis

Influenciador britânico recebeu 40 ml do produto, quatro vezes a dose usual, e morreu de embolia pulmonar. No Brasil a técnica é permitida, mas médicos alertam para limites de volume e local de aplicação.

Imagem de capa sobre os riscos da aplicação de ácido hialurônico no pênis.

Um influenciador britânico de 43 anos recebeu, em março, uma aplicação de 40 mililitros de ácido hialurônico no pênis em uma clínica de Bangcoc — quatro vezes o volume que um urologista costuma usar em uma primeira sessão. Horas depois, ele sentiu dor no peito, desmaiou e teve uma embolia pulmonar; em agosto, um legista de Londres concluiu que a substância provocou a morte.

No Brasil, a aplicação de ácido hialurônico no pênis é permitida e considerada segura pela Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) quando feita por um urologista. O risco, segundo a entidade, surge por dois caminhos: profissionais sem formação médica realizando o procedimento e pacientes que buscam um resultado que a técnica não oferece.

Bernardo Hermanson, urologista e andrologista da SBU, explica que a maioria dos homens procura o preenchimento esperando aumentar o comprimento do pênis — o que não acontece. A substância aumenta apenas a circunferência e o volume do órgão flácido, sem alterar o tamanho durante a ereção. "Se o pênis tem 15 centímetros ereto, continuará com os mesmos 15 centímetros depois do preenchimento. O que muda é a espessura e o volume, principalmente quando está flácido", afirma. O efeito é temporário: o corpo reabsorve o material em seis meses a um ano, exigindo nova aplicação para manutenção.

O Conselho Federal de Medicina (CFM) e a SBU autorizam duas técnicas para engrossar o pênis: injeção de ácido hialurônico ou de gordura retirada do próprio paciente — nenhuma delas muda o tamanho em ereção. Já as cirurgias de alongamento peniano ficam restritas a casos como micropênis (menos de 8 centímetros) ou curvaturas graves, já que podem causar perda de sensibilidade ou necrose da glande. "Um pênis normal e saudável não deve ser operado apenas por estética. Os riscos não compensam o benefício", diz Hermanson.

A segurança do preenchimento depende mais do local de aplicação do que do produto em si. O urologista injeta o ácido apenas nas laterais do órgão, em uma camada sem vasos sanguíneos, onde o material fica retido e produz o engrossamento. A parte de baixo, por onde passa a uretra, e a parte de cima, onde correm a veia dorsal e os nervos responsáveis pela sensibilidade, são áreas de exclusão total. O uso de cânula — um tubo fino de ponta arredondada que se desloca entre os tecidos — ajuda a evitar que o material atinja um vaso por acidente.

Quando o ácido entra na circulação, ele viaja pelo sangue até o pulmão, onde as veias se ramificam em canais tão finos quanto um fio de cabelo — é ali que ocorre a troca de oxigênio. O material pode obstruir essa passagem, causando embolia, o entupimento de um vaso por algo que não deveria estar circulando. Sem a troca de oxigênio, o quadro se agrava em minutos, e o tamanho da obstrução determina a gravidade: os 40 mililitros aplicados no caso da Tailândia representavam material suficiente para um desfecho fatal. "Uma quantidade pequena que alcance a circulação tende a provocar uma embolia limitada, da qual um paciente jovem costuma se recuperar. Um quadro fatal exige que um volume grande de material chegue aos pulmões", diz Hermanson.

Ubirajara Barroso, vice-presidente da SBU, cita três fatores por trás desse tipo de acidente: a injeção acidental dentro de um vaso, o uso de produto sem procedência ou registro sanitário, e o volume excessivo para o espaço disponível, que comprime os tecidos e interrompe a circulação local. Mesmo sem embolia, uma aplicação malfeita pode causar dano grave e restrito ao próprio órgão — há relatos de homens que perderam o pênis ou a pele dele após injeções mal posicionadas.

Na prática clínica, os especialistas convergem para uma dose bem menor: cerca de 10 mililitros em média na primeira sessão — Barroso trabalha entre 8 e 10 ml, Hermanson diz nunca ter ultrapassado 12 ml. O volume varia conforme o tamanho do órgão e tende a diminuir nas sessões seguintes, já que o paciente não reabsorve todo o material aplicado antes; passar do necessário só forma nódulos e placas que deixam o órgão irregular.

O procedimento é ambulatorial, sem internação, e a recomendação é evitar atividade sexual por cinco dias, retomando a rotina normal em cerca de uma semana — o ácido é gelatinoso ao ser aplicado e precisa de tempo para se firmar, sob risco de deformar o resultado se houver relação sexual antes disso. Dor e inflamação local são os efeitos colaterais mais comuns, e infecções ocorrem em 1% a 2% dos casos, geralmente resolvidas com antibiótico. O resultado é reversível por meio de uma enzima que dissolve o produto, aplicada em consultório sem necessidade de cirurgia.

As contraindicações concentram-se em problemas de pele e prepúcio, como fimose acentuada, infecções ou lesões na região, além da rara alergia ao ácido hialurônico. Não há restrição por tamanho do órgão, já que o objetivo é estético. Existe, porém, um grupo para quem o procedimento é desaconselhado mesmo com o pênis saudável: homens com transtorno dismórfico corporal centrado no órgão, que se enxergam menores do que realmente são e para quem nenhum resultado é suficiente. "Mesmo homens com pênis absolutamente normais podem se enxergar diminuídos. Nesses casos, o procedimento é contraindicado, porque a demanda é psicológica e psiquiátrica", afirma Barroso. O influenciador britânico havia feito cinco aplicações em dois anos — intervalo que, para Hermanson, deveria ter sido um alerta para o médico responsável interromper o processo e encaminhá-lo a acompanhamento psiquiátrico.

Parte da procura pelo procedimento nasce de comparações equivocadas. A maior revisão já realizada sobre o tema, publicada em 2015 na revista BJU International com base em 17 estudos e mais de 15 mil homens, encontrou média de 13,12 centímetros em ereção — mas muitos pacientes de Barroso chegam ao consultório acreditando que essa média fica perto de 15 centímetros e se julgam abaixo do esperado sem estar. Outro equívoco comum envolve o prazer da parceira: segundo o urologista, os receptores erógenos concentram-se na superfície da vagina e do ânus, e o tamanho do pênis aparece entre os últimos fatores associados à excitação feminina em levantamentos — órgãos muito grandes podem inclusive causar dor durante a penetração.

A SBU recomenda que o procedimento seja feito exclusivamente por urologista, formação que exige três anos de residência em cirurgia geral e mais três em urologia, período em que o médico aprende a anatomia do órgão genital e suas variações entre pacientes, já que a distribuição dos vasos não é igual em todos os casos. Um profissional sem essa formação pode não identificar alterações anatômicas que exigiriam correção cirúrgica e aplicar o ácido mesmo assim. "Profissional habilitado é o que conhece a anatomia da região que está tratando e sabe resolver as complicações que pode causar", conclui Hermanson.

Com informações do G1.

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