Neste domingo (13), quase 100 mil médicos e estudantes de Medicina no Brasil prestam o Exame Nacional de Residência (Enare) — uma espécie de "Enem da residência". Segundo dados do Ministério da Educação, o exame recebeu 98.036 inscrições para 8.295 vagas.
A disputa é ainda maior nas chamadas residências de "acesso direto", que podem ser iniciadas pelo recém-formado sem especialização anterior: são 89.935 inscrições para 6.019 vagas, uma média de quase 15 candidatos por vaga. A concorrência, porém, varia muito conforme a área: no acesso direto, o maior índice é em Otorrinolaringologia, com 38,94 candidatos por vaga, seguida por Medicina Legal e Perícias Médicas (36,67), Medicina Esportiva (36), Dermatologia (32,19) e Neurocirurgia (31,49). No extremo oposto, aparecem Acupuntura (3,33), Medicina de Emergência (3,98), Infectologia (4,33) e Homeopatia (4,50). Além das vagas de acesso direto, o exame ainda oferece 1.301 vagas de "pré-requisito" (que exigem outra especialidade), 807 de "área de atuação" (complemento para quem já é especialista) e 168 de ano adicional.
A seleção deste ano expõe um desafio crescente na formação médica brasileira: nas últimas duas décadas, o país multiplicou os cursos e as vagas de graduação na rede privada, mas as oportunidades de residência não cresceram no mesmo ritmo. Entre 2018 e 2024, o número de estudantes de Medicina aumentou cerca de 71%, saltando de 167,7 mil para 287,4 mil, enquanto o total de médicos residentes cresceu apenas 26% no período, de 37.742 para 47.718.
O resultado é um número cada vez maior de médicos que terminam a graduação sem uma vaga correspondente de residência — o que, na ponta, também limita a qualidade do atendimento oferecido aos pacientes. Em 2023, 32.611 médicos se formaram no país; no ano seguinte, havia apenas 16.189 vagas ocupadas de primeiro ano (R1), uma diferença de 16.422 — ante apenas 3.886 em 2018.
A Lei do Mais Médicos, de 2013, previa que o país oferecesse todos os anos um número de vagas de residência equivalente ao total de formados no ano anterior, com implementação progressiva até o fim de 2018 — meta que, segundo especialistas ouvidos na reportagem, nunca foi cumprida. Em 2024, 40,9% dos médicos brasileiros ainda não tinham título de especialista, e a proporção de especialistas no país (59,1%) ficou abaixo da média de 62,9% verificada em 39 países pelo estudo Demografia Médica 2025 — pesquisa conduzida pelo departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP, em parceria com a Associação Médica Brasileira, o Ministério da Saúde, a Organização Pan-Americana da Saúde, o Ministério da Educação e a Fapesp.
O descompasso entre graduação e residência vem se formando há duas décadas. Em 2004, o Brasil tinha 132 cursos de Medicina e 13.820 vagas anuais; em 2024, eram 448 cursos e 48.491 vagas autorizadas — um crescimento de 239% no número de cursos e 251% no de vagas, enquanto a população brasileira cresceu cerca de 18% no mesmo período. A expansão se acelerou sobretudo na última década: entre 2004 e 2013 foram criadas 7.692 vagas, e entre 2014 e 2024, outras 27.921 — quase quatro vezes mais —, das quais 91,5% em instituições privadas. Mantido o ritmo de expansão já autorizado, o estudo Demografia Médica projeta que o Brasil deverá formar, em curto prazo, mais de 42 mil novos médicos por ano.
José Eduardo Lutaif Dolci, diretor científico e próximo presidente da Associação Médica Brasileira (AMB), alerta que a distância entre o número de formados e o de vagas de especialização tende a crescer ainda mais. Antônio José Gonçalves, presidente da Associação Paulista de Medicina, reforça que a residência é essencial para completar a formação: "Seis anos de graduação, mesmo nas melhores escolas, não são suficientes para formar um bom médico. A residência médica é fundamental para melhorar a qualidade do médico."
Diante do gargalo, o governo federal anunciou em fevereiro deste ano a criação de 3 mil novas bolsas de residência, dentro do programa Agora Tem Especialistas — com isso, a União passa a financiar mais de 60% das bolsas de residência do país, segundo o Ministério da Saúde. O número, no entanto, cobre apenas cerca de 18% da diferença de 16.422 vagas registrada entre formados em 2023 e vagas de R1 ocupadas em 2024 — e a comparação não é direta, já que nem todas as novas bolsas correspondem a vagas de acesso direto. Até agosto de 2026, 2.872 das 3 mil bolsas previstas já haviam sido financiadas via Pró-Residência, com o edital ainda com adesões abertas e previsão de completar a meta até o fim do ano. As vagas priorizam especialidades consideradas estratégicas para o SUS, como oncologia, anestesiologia, cirurgia oncológica, neurologia pediátrica, oftalmologia e radioterapia.
A escassez de vagas não é o único obstáculo à especialização: segundo especialistas ouvidos na reportagem, parte dos médicos recém-formados enfrenta dívidas ou precisa começar a trabalhar de imediato, optando por plantões em vez da residência. Os programas exigem 60 horas semanais de dedicação, com bolsa mínima de R$ 4.106,09 brutos, valor que Dolci considera insuficiente diante da carga horária. A AMB defende ainda que o governo passe a financiar bolsas em programas de especialização mantidos por sociedades médicas — segundo Dolci, 32 das 54 sociedades de especialidade já mantêm centros de ensino e treinamento, hoje sem credenciamento pelo MEC, que formam mais de 5 mil especialistas por ano.
Para os especialistas, o simples aumento no número de médicos não resolve o problema se não vier acompanhado de qualificação. Mantido o ritmo atual, o Brasil deve chegar a 1,15 milhão de médicos em 2035, com densidade de cerca de 5,2 profissionais por mil habitantes — mas Dolci chama atenção para o impacto na atenção primária: médicos sem capacitação adequada tendem a resolver menos casos nesse nível de atendimento, aumentando encaminhamentos a especialistas. "O médico qualificado que vai para a atenção básica, em tese, deveria estar resolvendo no mínimo 75% dos casos. Mas isso não acontece no Brasil porque esse médico não está qualificado", afirma. A distribuição de profissionais também segue desigual: o Sudeste concentra 46,3% dos médicos do país, 18 das 27 unidades da federação têm razão de médicos por habitante abaixo da média nacional, e as capitais somam 366% mais médicos por mil habitantes que o restante dos estados — o que leva especialistas a defender a criação de uma carreira de Estado para médicos, nos moldes das existentes para juízes, promotores e delegados, como forma de estimular a permanência em cidades menores.
A qualidade da formação também preocupa: dos 351 cursos avaliados na primeira edição do Enamed, em 2025, 107 — mais de 30% do total — ficaram nas duas faixas mais baixas, sendo 24 com conceito 1 e 83 com conceito 2. Gonçalves defende maior fiscalização da infraestrutura, dos hospitais conveniados e do corpo docente das faculdades, e, junto com Dolci, propõe a criação de um exame de proficiência para verificar se o recém-formado está apto a exercer a Medicina — uma avaliação distinta do Enamed, que mede o desempenho dos estudantes e ajuda a avaliar os cursos. Para os especialistas ouvidos, o desafio das políticas públicas não termina na abertura de vagas na graduação: será preciso decidir quantas oportunidades de especialização oferecer, em quais áreas e regiões, e em que ritmo a residência pode crescer para acompanhar a expansão da formação médica.
Com informações do G1.

