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Como o Banco Master fabricava documentos: PF detalha a estrutura interna por trás dos créditos ao BRB

Apresentação apreendida pela Polícia Federal detalha como diretores, gerentes e times de tecnologia do banco participaram da geração de arquivos usados para sustentar créditos vendidos ao BRB.

Documentos da Polícia Federal detalham suposto esquema de produção de arquivos falsos no Banco Master.

Documentos divulgados nesta sexta-feira (11) mostram, segundo a Polícia Federal, como funcionários do Banco Master atuaram na produção de arquivos considerados falsos e usados para respaldar operações de venda de créditos ao Banco de Brasília (BRB). O material veio a público depois que o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, determinou a quebra do sigilo das principais investigações do caso, em meio à crise que atinge a Corte.

Entre as provas está uma apresentação interna produzida pelo próprio Master e apreendida durante a Operação Compliance Zero. O documento reconstrói uma cadeia que ia da extração de dados de clientes até a geração, assinatura e envio dos arquivos, envolvendo funcionários de diferentes níveis hierárquicos — de diretores e gerentes a equipes de tecnologia e áreas operacionais.

Para a PF, esse material reforça a hipótese de que boa parte dos créditos comprados pelo BRB do Master estaria ligada a operações irregulares. Peritos também identificaram que a diretoria do banco público seguiu aprovando novas operações mesmo depois de alertas internos sobre problemas de documentação, liquidez e inconsistências nas carteiras negociadas.

Segundo a apresentação, dados de clientes do CredCesta — programa de crédito consignado ligado ao Master — foram usados para gerar em massa Cédulas de Crédito Bancário (CCBs), procurações e termos de consentimento, parte dos quais teria servido para comprovar os créditos repassados ao BRB. Em um dos episódios relatados, o gerente Allan da Silva Machado teria usado uma planilha e a ferramenta de mala direta do Word para produzir 2.700 procurações, armazenadas em uma pasta chamada "Demanda BRB-Tirreno 2700 amostras" — lote do qual, segundo a investigação, provavelmente saíram documentos incluídos em uma amostra de 1.785 contratos apresentada ao BRB como prova de créditos originados pela Tirreno.

Uma das conversas reproduzidas no relatório mostra o próprio Allan pedindo à funcionária da tesouraria Romy Goerck Gentina Klenquen comprovantes de transferência sem número de contrato ou histórico que permitissem identificar as transações. Diante da dificuldade de fazer isso em 2.700 comprovantes, ele resume: "Tem que dar um jeito" — frase que a PF classifica como indício de uma "provável emissão de comprovantes de transação manipulados".

Outras mensagens mostram o mesmo gerente orientando um colega da área de tecnologia, Moacir Lourenço da Silva Junior, a excluir a data registrada em termos de consentimento assinados por clientes — o que dificultaria saber quando o consentimento foi de fato formalizado. Em um dos casos analisados, um documento datado de 21 de janeiro de 2025 só recebeu assinatura eletrônica em 20 de junho daquele ano, cerca de cinco meses depois, o que reforça a suspeita de que arquivos tenham sido produzidos posteriormente para justificar créditos negociados com o BRB.

As inconsistências também chamaram a atenção da auditoria externa Deloitte, responsável por checar a conformidade das carteiras. Diante das cobranças da auditoria sobre divergências em contratos referentes ao período de dezembro de 2024 a março de 2025 — todos ligados à carteira da Tirreno —, o coordenador de controles do Master, Fabrizio Pereira Alencar, buscou orientação do diretor Alberto Felix de Oliveira Neto, que respondeu: "Esse tem que falar que foi erro operacional na seleção."

Segundo a PF, essa apresentação é um relatório de apuração interna feito pelo próprio Master, intitulado "Investigações internas – Banco Master", que buscava registrar condutas de funcionários com potencial de causar danos financeiros, reputacionais e institucionais — incluindo a geração e manipulação de CCBs, procurações e termos de consentimento, a exclusão de datas, tentativas de alterar comprovantes e orientações sobre como responder à Deloitte. O material foi localizado pela PF no acervo digital entregue pelo liquidante responsável por administrar o banco durante o processo de liquidação.

Analisando o conjunto das operações, os peritos da Polícia Federal concluíram que os mesmos problemas se repetiram em diferentes etapas da relação entre BRB e Master, dentro de um total de R$ 47,78 bilhões em negócios entre as instituições — dos quais R$ 31,74 bilhões correspondem a carteiras de crédito vendidas pelo Master ao banco público.

Entre os padrões identificados estão pagamentos liberados antes da conclusão das análises técnicas, pareceres finalizados somente depois de o dinheiro já ter sido repassado, compras fracionadas para ficar dentro do limite de decisão da diretoria, ausência de avaliação ampla e independente sobre os riscos de negociar com o Master, concentração excessiva de compras em uma única instituição e manutenção dos pagamentos mesmo após alertas financeiros. Para a perícia, a repetição desse padrão configura elementos técnicos e documentais suficientes para caracterizar "gestão fraudulenta" na compra das carteiras do Master, e não apenas uma gestão temerária, já que "a utilização reiterada da forma para encobrir ou neutralizar a substância decisória" foi um traço constante das operações.

Com informações do G1.

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