Quem busca atendimento nos postos de saúde e UPAs de Curitiba e da Região Metropolitana convive diariamente com a espera por consultas especializadas e exames. Uma análise detalhada sobre os planos de governo dos seis principais pré-candidatos à Presidência da República revela que a maioria das promessas para a saúde pública não traz inovações práticas e pressiona diretamente o orçamento das prefeituras.
Reciclagem de programas e dependência dos municípios
O levantamento técnico avaliou 95 propostas de governo sob critérios de viabilidade financeira, base legal e execução federativa. O resultado aponta desconhecimento da rotina do Sistema Único de Saúde (SUS), incluindo propostas de cadastros que já estão em operação nas unidades municipais.
- 56% das propostas correspondem a programas que já existem e funcionam no SUS.
- 95% dos projetos apresentados exigem recursos financeiros adicionais para sair do papel.
- 83% das ações dependem de pactuação e execução direta de estados e municípios.
- 47% dos planos apresentam intenções genéricas, sem detalhar de onde sairá o dinheiro.
“O orçamento para a Saúde já é insuficiente e o cenário pode ficar ainda mais complexo com propostas que demandam mais recursos. Nesse cenário, ainda existem candidatos que defendam o fim do piso da saúde ou discursam sobre cortes para o setor.”
Raio-x das propostas dos candidatos
A distribuição das metas mostra caminhos distintos entre os concorrentes ao Palácio do Planalto, com diferentes níveis de impacto para os serviços locais:
- Luiz Inácio Lula da Silva: Foco na continuidade de programas ativos (PADI Brasil, PNR-SUS e Agora Tem Especialistas) e regulação digital por risco. 19 das 21 propostas mantêm políticas em vigor, mas todas exigem verba extra.
- Ronaldo Caiado: Apresenta metas para 2030 em linhas de cuidado para AVC, infarto e doenças raras. É o plano com maior detalhamento técnico (76%), porém com 84% de dependência de acordos com prefeituras e estados.
- Romeu Zema: Propõe usar capacidade ociosa privada e flexibilizar regras para planos de saúde ambulatoriais. Metade das propostas não explica a execução e três exigem mudança em leis federais.
- Flávio Bolsonaro: Sugere prontuário por CPF, triagem por inteligência artificial e reajuste da Tabela SUS. Não indica fonte de financiamento e 73% dos itens exigem adesão dos municípios.
- Renan Santos: Foco em prontuário genômico e importação de sistema digital de El Salvador. 71% dos pontos exigem novas leis federais e o plano inclui a desvinculação do piso constitucional da saúde.
- Augusto Cury: Propõe atendimento digital em até 30 minutos e modelo hospitalar específico para câncer. Nenhuma das 10 propostas detalha a forma de execução orçamentária ou técnica.
Pontos cegos: apostas online, eventos climáticos e ambiente digital
A análise identificou que as principais novas demandas de saúde pública foram ignoradas pelos candidatos. O avanço das apostas online atinge 25 milhões de brasileiros, gerando cerca de 1,4 milhão de pessoas com critérios para transtorno do jogo e um custo social de R$ 38,8 bilhões por ano, tratado apenas como finança doméstica nas campanhas.
Outro gargalo urgente é a infraestrutura física: 29% das unidades do SUS no país estão situadas a menos de 500 metros de áreas com alto risco geológico e de alagamento, sem planos de contingência associados. Da mesma forma, nenhum plano apresentou medidas de regulação das redes sociais voltadas à proteção da saúde mental de crianças e adolescentes.