Nas redes sociais, onde reunia mais de 17 mil seguidores, a médica Carolina Fernandes Biscaia, de Pato Branco, no Sudoeste do Paraná, se apresentava como dermatologista com foco em oncologia cutânea e embelezamento da pele — apesar de não ter esse registro de especialidade nos Conselhos Regionais de Medicina do Paraná e de São Paulo.
As suspeitas começaram em março de 2024, quando pacientes passaram a questionar procedimentos cirúrgicos indicados por ela. Nesta quinta-feira (10), a Justiça a condenou a 11 anos e 8 meses de prisão pelos crimes de exercício ilegal da profissão, 21 casos de lesão corporal e 32 de estelionato.
A defesa afirmou que a sentença de primeiro grau acolheu parcialmente os pedidos e informou que vai recorrer.
Ao menos 38 pessoas que se identificaram como vítimas foram ouvidas ao longo da investigação, embora em parte dos casos a Justiça tenha considerado que não havia provas suficientes para condenação. O Ministério Público estima o prejuízo financeiro causado às vítimas em cerca de R$ 130,4 mil.
A apuração concluiu que a médica emitia diagnósticos de câncer de pele que não se confirmavam depois e, com base neles, solicitava cirurgias avaliadas como desnecessárias.
Apesar da condenação, uma consulta ao site do Conselho Federal de Medicina mostra a situação da médica como "regular". Questionado pela reportagem sobre eventual processo administrativo em curso, o CRM-PR não respondeu diretamente, alegando sigilo dos processos ético-profissionais, mas informou que sanções podem variar de advertência a cassação caso irregularidades sejam comprovadas.
Em março de 2024, o próprio CRM-PR já havia aplicado à médica a punição de "censura pública" por anunciar especialidade que não possuía, e em maio daquele ano chegou a determinar uma interdição cautelar total de 180 dias, aprovada pelo Conselho Federal de Medicina. Atualmente, o site do conselho não lista nenhuma especialidade vinculada a Biscaia, embora ela continuasse se apresentando como dermatologista nas redes sociais.
Segundo apurou a Polícia Civil, a médica agia sozinha e exercia "forte pressão psicológica" para que os pacientes realizassem os procedimentos no próprio consultório, logo após receberem os diagnósticos falsos. O método envolvia examinar pintas e manchas, alegar suspeita de câncer, retirar o material e enviá-lo a laboratório — mas, na consulta de retorno, apresentar ao paciente um laudo falsificado.
Perícias identificaram que a falsificação dos laudos era feita com uma máquina de xerox dentro do próprio consultório: documentos falsos eram sobrepostos aos originais para gerar novas versões dos laudos.
Um áudio gravado por uma vítima em janeiro de 2024 e usado como prova nas investigações registra o momento em que a médica comemorou a retirada de um suposto melanoma — o tipo mais agressivo de câncer de pele. "Não sei se você é católica ou não, mas passa na igreja, agradece a Deus […]. Não precisa se preocupar com metástase", disse ela na gravação.
A paciente só descobriu a fraude ao notar inconsistências entre o laudo entregue pela médica e o documento retirado diretamente no laboratório. Ela chegou a passar por um procedimento de ampliação de margens na perna esquerda, gastando mais de R$ 5 mil e ficando com uma cicatriz desnecessária.
Com informações do G1.


