Depois de o Paraná registrar dois tornados de categoria máxima em menos de 24 horas nesta semana, um levantamento a que teve acesso a reportagem mostra que o Brasil já soma 524 registros do fenômeno desde julho de 2018, com concentração expressiva na Região Sul.
Os números vêm do Prevots, projeto conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), da Universidade de Oklahoma, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e do Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam) — já que o país não conta com um banco de dados oficial dedicado a essas ocorrências.
Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina juntos respondem por 43% de todos os tornados contabilizados no Brasil no período. Somente em 2026, até agosto, foram 86 ocorrências — 58% do total de 148 registradas ao longo de todo o ano de 2025.
Um tornado é definido como uma coluna de vento que gira em alta velocidade e conecta uma nuvem de tempestade ao solo, em formato de funil. Sua formação depende de uma combinação específica de condições atmosféricas, mais comum no Sul do país. Foi essa região que, no ano passado, viu Rio Bonito do Iguaçu ser destruída por um tornado de categoria F4 — uma das mais altas da escala —, tragédia que matou seis pessoas.
Segundo Ernani Nascimento, doutor em Meteorologia pela Universidade de Oklahoma e pesquisador do Inpe, é no Sul que o ar quente e úmido vindo da Amazônia encontra o ar frio e seco que chega da Argentina, um choque que intensifica os ventos em altitude — fenômeno batizado de cisalhamento.
Dos 524 casos mapeados, 227 ocorreram em apenas três estados: Rio Grande do Sul (93), Paraná (81) e Santa Catarina (53). Enquanto no país como um todo prevalecem os tornados mais fracos, no Sul mais da metade das ocorrências (51%) é originada por supercélulas, o tipo de tempestade com maior potencial de destruição — uma tempestade que gira por inteiro e, ao se afunilar até o solo, dá origem ao fenômeno.
O pesquisador explica esse padrão citando os chamados "rios voadores", correntes de vento que carregam calor e umidade da Amazônia até o Sul do país. "É como se esse rio, que está trazendo ar quente e úmido, desembocasse no Sul do Brasil. E, ao fazer isso, é como se começasse a empoçar a umidade naquela região do mapa", descreve Ernani. O encontro com o ar frio vindo da Argentina cria o contraste que acelera o vento em altura, dando origem ao cisalhamento — e, a partir dele, à rotação que pode descer até o chão e formar o tornado.
São Paulo aparece logo atrás do Rio Grande do Sul no ranking geral, com 90 registros — só três a menos que o estado gaúcho, líder nacional. Segundo o especialista, os mesmos ingredientes atmosféricos alcançam o Centro-Sul, incluindo São Paulo e o Mato Grosso do Sul, ainda que com menor frequência.
No ranking de cidades mais atingidas desde 2018, lideram Sarandi (RS), Guaíba (RS) e Dourados (MS), cada uma com nove ocorrências, seguidas por Horizontina (RS) e Xanxerê (SC), com oito cada, além de Ananindeua (PA), também com oito. Corbélia (PR) e Cerqueira César (SP) somam sete cada, empatadas com Salvador (BA); Guarapuava (PR) fecha a lista com seis registros.
A identificação dos tornados combina relatos de moradores nas redes sociais e notícias — que ajudam a apontar local e horário aproximados — com a análise de imagens de satélite ambiental, as mesmas usadas para monitorar queimadas, capazes de revelar o rastro de destruição deixado na vegetação e confirmar a extensão e a intensidade do fenômeno.
Os tornados variam conforme o tipo de tempestade que os origina: a supercélula é a mais forte e duradoura; a linha de instabilidade, formada por várias tempestades lado a lado sem rotação isolada, costuma gerar fenômenos de força intermediária; e as trombas d'água e terrestres raramente evoluem para algo mais intenso. Segundo o Prevots, essas trombas somam 58% dos registros no Brasil, enquanto as supercélulas correspondem a 27% — ou seja, o tipo mais frequente não é o mais destrutivo. No total, foram 142 casos de alta intensidade (supercélulas), 78 de intensidade média (linhas de instabilidade) e 304 de baixa intensidade (trombas).
Prever a formação de tornados com precisão de local e horário continua sendo um desafio: é possível apontar, com até 24 horas de antecedência, regiões sob risco de tempestades capazes de gerar o fenômeno, mas a exatidão sobre onde e quando ele vai passar só aumenta quando a tempestade já está em curso, quando o radar meteorológico consegue detectar a rotação característica de uma possível supercélula — com alertas que valem para apenas 30 a 45 minutos. Nesta semana, apenas a Climatempo havia previsto tornado com mais de um dia de antecedência, diante da intensidade da chuva prevista para a região.
Segundo Ernani, o Brasil já dispõe de radares de dupla polarização, tecnologia semelhante à usada nos Estados Unidos, capazes de identificar quando uma tempestade entra em "modo tornádico" — e o Inpe já treina meteorologistas para reconhecer esse padrão nas imagens, com casos documentados de captação bem-sucedida por radares brasileiros.
Com informações do G1.


