Ao longo de duas décadas e dez discursos na Assembleia Geral das Nações Unidas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva promoveu uma mudança profunda nas prioridades diplomáticas do Brasil. A análise dos pronunciamentos feitos entre 2003 e 2008, confrontados com o ciclo de 2023 a 2026, mostra a transição de uma agenda focada em comércio e inclusão social para um posicionamento incisivo contra a emergência climática, as ameaças à soberania digital e os ataques à democracia.
Pilares permanentes: fome, conflitos e reforma da governança global
Três eixos temáticos se mantiveram constantes em todas as participações de Lula na sede da ONU, em Nova York: a erradicação da fome, a defesa do multilateralismo e a cobrança pela reformulação do Conselho de Segurança.
- Combate à fome: Da criação do Fome Zero em 2003 ao lançamento da Aliança Global contra a Fome em 2024 e a celebração da saída do Brasil do Mapa da Fome da FAO em 2025 e 2026.
- Reforma do Conselho de Segurança: Cobrança contínua pela inclusão de países da América Latina e África como membros permanentes, denunciando a paralisia do órgão diante de crises internacionais.
- Solução pacífica de conflitos: Repúdio ao unilateralismo, mantendo o apoio histórico à criação do Estado Palestino e abordando desde a Guerra do Iraque (2003) até os conflitos na Ucrânia e na Faixa de Gaza (2023–2026).
“O Brasil não cabe no quintal de ninguém.”
Da defesa dos biocombustíveis à emergência climática planetária
A questão ambiental foi o tema que sofreu a transformação mais radical. Nos primeiros mandatos, o Brasil defendia o Protocolo de Quioto e promovia os biocombustíveis (etanol e biodiesel) como motores de desenvolvimento. A partir de 2023, o discurso passou a tratar o tema como emergência climática global, assumindo metas de desmatamento zero até 2030, a criação do Fundo Florestas Tropicais para Sempre e a convocação da COP30 em Belém.
A postura institucional em relação à própria ONU também se tornou mais severa. O tom otimista dos anos 2000 deu lugar a alertas sobre o esgotamento do sistema internacional, com denúncias sobre a disparada dos gastos militares globais acima de 2,4 trilhões de dólares e a perda de eficácia da organização.
Novas frentes: Big Techs, apostas online, escala 6×1 e crime organizado
Nos discursos mais recentes, a tribuna internacional passou a ser usada para pautas inéditas ligadas ao cotidiano da população, à segurança institucional e aos direitos laborais.
- Regulação digital: Alerta contra monopólios de Inteligência Artificial, combate à indústria das apostas eletrônicas (bets), proteção online para crianças e adolescentes e blindagem do PIX contra privatização.
- Defesa da democracia: Repúdio a tentativas de desestabilização institucional, ingerência externa em eleições via desinformação e apoio às decisões do Judiciário brasileiro.
- Segurança pública e trabalho: Criação de mecanismos internacionais contra a lavagem de dinheiro, cooperação policial na Amazônia, promulgação da Lei Antifacção e apoio ao fim da jornada de trabalho na escala 6×1.
Reflexos na política interna
A inclusão de temas como jornada de trabalho, controle de plataformas digitais e segurança integrada nas Nações Unidas indica que a política externa brasileira passa a operar em sincronia direta com os projetos de lei e regulamentações em tramitação no país.