Em uma propriedade rural conduzida por Jacir, a rotina do campo une décadas de tradição familiar a tecnologias cada vez mais presentes. Ele conta com a ajuda da filha, Aline Duffeck Cheffer, de 21 anos, que cresceu envolvida nas atividades agrícolas. Ao todo, são 92 animais no local, e a principal fonte de renda da família vem da pecuária leiteira, sustentada por 47 vacas da raça Jersey.
A propriedade foi comprada pelo pai de Jacir em 1974, e o amor pela atividade rural vem sendo passado entre gerações desde então. Há 30 anos no ramo, Jacir viu de perto como práticas e equipamentos utilizados no campo mudaram drasticamente ao longo do tempo, exigindo adaptação constante dos produtores.
A alimentação dos animais destinados ao agronegócio é um ponto central de atenção, já que são eles que fornecem boa parte dos nutrientes que chegam à mesa da população. A nutrição funcional é essencial para garantir uma dieta equilibrada, resultando em produtos finais de melhor qualidade — seja leite, ovos, carne ou outros derivados de origem animal.
O veterinário Adriano Ramos Cardoso, coordenador do curso de Medicina Veterinária do Centro Universitário FAG, explica que uma dieta ideal se apoia em três pilares: genética, nutrição e sanidade. Segundo ele, o equilíbrio surge quando a sanidade está garantida e a dieta oferece, ao mesmo tempo, energia, aminoácidos essenciais, minerais, vitaminas e água.
Para tornar essa evolução da nutrição cada vez mais eficiente, a tecnologia tem papel decisivo — e o agronegócio não fica de fora dos avanços que marcam o século 21. Ferramentas baseadas em inteligência artificial (IA) já vêm sendo incorporadas como apoio aos produtores rurais, facilitando o dia a dia e contribuindo para a qualidade do trabalho no campo.
Há cerca de dez anos, a propriedade da família de Jacir recebe suporte técnico do IDR-Paraná (Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná), atualmente conduzido pelo extensionista Endrigo Antônio Carvalho. Segundo ele, o acompanhamento se intensificou a partir de 2018, quando a metodologia da Extensão Rural passou a considerar a propriedade uma Unidade de Referência, levando novas tecnologias ao local para compartilhar resultados com outros produtores da região.
Endrigo realiza duas visitas mensais — uma voltada à gestão, outra ao aspecto técnico. Ele explica que a propriedade utiliza forragem cortada e silagem de milho na alimentação animal, complementadas por ração comercial, farelos de soja e milho, aveia branca, grão inteiro e outros insumos produzidos no próprio local. No caso das vacas, a alimentação é ajustada conforme peso, fase de lactação, potencial produtivo, escore corporal e ambiência de cada animal.
"Várias tecnologias são utilizadas, ainda que não automatizadas e informatizadas, como o uso de pastagens melhoradas, de alta qualidade e adaptadas à região, análise e correção de solo, adubação de manutenção das pastagens, uso de híbridos de milho para silagem adequados para a região e nutrição animal individualizada por vacas", detalha o extensionista.
Sérgio Mota, coordenador do curso de Inteligência Artificial do Centro Universitário FAG, explica que a produção de rações depende cada vez mais de dados sobre clima, ingredientes, saúde animal e mercado. Segundo ele, a IA já é usada por grandes players mundiais do setor para ajustar formulações em tempo real, prever demandas nutricionais específicas de aves e reduzir custos e perdas na produção — com a nutrição funcional ganhando espaço não só para alimentar, mas para promover saúde, resistência a doenças e qualidade final da carne, do leite e dos ovos.
Entre os principais benefícios da IA citados por Mota estão a redução do desperdício de insumos, a diminuição da emissão de gases e o uso mais eficiente de subprodutos agrícolas. Do ponto de vista produtivo, a tecnologia permite melhor conversão alimentar — menos ração para o mesmo ganho de peso —, prevenção de doenças por meio da nutrição, com menor uso de antibióticos, e produtos finais de qualidade superior.
Para chegar a recomendações personalizadas por lote ou região, a tecnologia analisa diferentes tipos de dados: zootécnicos (peso, conversão alimentar, mortalidade, ganho médio diário), ambientais (temperatura, umidade, densidade populacional), de ingredientes (composição nutricional, variação de safras, disponibilidade e custo), de saúde (biomarcadores de imunidade e microbiota intestinal) e de mercado (preço de insumos e demanda por proteína animal).
Entre as ferramentas recomendadas por Mota estão plataformas de formulação inteligente que usam IA para equilibrar nutrientes e custo, sensores de internet das coisas (IoT) em granjas que captam dados em tempo real, modelos preditivos que simulam cenários de crescimento, machine learning aplicado à nutrição funcional para identificar as melhores combinações de ingredientes, e sistemas de ERP agrícola que integram estoque, compras e vendas.
Endrigo detalha como essas tecnologias já impactam a sustentabilidade da produção de Jacir: a IA permite oferecer a quantidade exata de nutrientes que cada vaca precisa, reduzindo desperdícios, o excesso de proteína ou energia na dieta e a excreção de nitrogênio e fósforo. Isso se traduz em menos emissão de gases de efeito estufa, menor produção de metano por litro de leite e melhor aproveitamento de recursos naturais como pastagens, concentrados e suplementos minerais.
Segundo Mota, o cenário atual da IA no campo é promissor, impulsionado por investimentos em coleta de dados, sensores, softwares de gestão e parcerias com empresas de nutrição, além da capacitação técnica para interpretar relatórios. Ele recomenda que produtores comecem com ferramentas simples antes de migrar para plataformas mais complexas, ainda que reconheça que o alto investimento e a necessidade de infraestrutura tecnológica e conectividade ainda limitem o acesso em diversas regiões do Brasil.
Olhando para o futuro, Endrigo afirma que os planos para a propriedade de Jacir incluem avaliar a adoção de equipamentos automáticos de distribuição de ração, raspadores automáticos de esterco, indicadores zootécnicos automatizados e sensores ambientais — projetos para médio e longo prazo. Enquanto o produtor segue se atualizando, a expectativa é de que a filha Aline dê continuidade ao legado da família, cada vez mais integrado às ferramentas tecnológicas disponíveis.
Com informações do G1.




