Muito antes de o planejamento urbano se consolidar como política pública central nos municípios, uma mulher desafiou convenções técnicas para desenhar cidades a partir da realidade de quem mais precisa de serviços públicos. Carmen Portinho (1903-2001), terceira brasileira a se diplomar engenheira e a primeira a conquistar o título de urbanista no país, transformou a gestão do espaço urbano ao vincular moradia social a equipamentos essenciais de atendimento à população.
Urbanismo do cuidado e serviços públicos integrados
Em uma época na qual a expansão urbana desconsiderava o deslocamento e a jornada dupla das mães trabalhadoras, Portinho introduziu a perspectiva de que a infraestrutura municipal deve absorver demandas de cuidado. Ao assumir a direção do Departamento de Habitação Popular do então Distrito Federal, ela idealizou o Conjunto Habitacional Prefeito Mendes de Morais, o Pedregulho, projeto que rompeu com a lógica de empurrar a população trabalhadora para periferias desprovidas de saneamento, transporte e serviços básicos.
- 1922: Co-fundadora da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino ao lado de Bertha Lutz.
- 1925: Conclusão do curso de Engenharia na antiga Universidade do Brasil.
- 1936: Obtenção do primeiro título formal de urbanista registrado no país.
- 1947: Criação e chefia do Departamento de Habitação Popular, implementando habitação social com escola e posto de saúde integrados.
- 2022: Reconhecida oficialmente pelo Estado brasileiro como patrona do urbanismo nacional.
“A habitação popular que Portinho ajudou a inventar não é patrimônio do passado, é agenda de futuro.”
Do voto feminino à reconstrução pós-guerra
A atuação técnica de Portinho sempre caminhou junto à garantia de direitos civis. Na década de 1920, ela chegou a sobrevoar a capital federal lançando panfletos para exigir o sufrágio feminino, conquistado formalmente em 1932. Em 1945, estagiou na Europa durante a reconstrução de cidades destruídas pela Segunda Guerra Mundial, trazendo conceitos modernos de adensamento ordenado e descentralização de serviços que aplicou diretamente na administração pública brasileira.
Impacto na gestão urbana contemporânea
O modelo proposto por Portinho de concentrar postos de atendimento, escolas e lavanderias comunitárias no mesmo perímetro habitacional permanece como referência técnica para o Plano Diretor de grandes centros urbanos. Sua visão estabeleceu as diretrizes modernas que priorizam a redução de trajetos pendulares e a valorização do tempo do cidadão no acesso aos serviços essenciais da cidade.